Accountability na Sexta-Feira Santa: do césio-137 à cruz

Accountability é uma palavra inglesa sem tradução exata em uma única palavra em português. Ela carrega o significado de assumir a responsabilidade por uma tarefa ou propósito, prestar contas, arcar com os próprios erros — e até com os de outros — e estar sujeito a sanções.

Nas redes sociais, muito se fala da Geração Z como se esses jovens fossem incapazes de assumir responsabilidades, especialmente no trabalho. Eu convivo diariamente com muitos profissionais dessa faixa etária e rejeito esse rótulo. Por outro lado, acredito que uma narrativa de desresponsabilização generalizada pode estar comprometendo não uma geração, mas toda uma era.

Escrevo sobre isso hoje por dois motivos.

O primeiro: acabei de assistir à série Emergência Radioativa, da Netflix. O segundo: hoje é Sexta-Feira Santa, quando celebramos o sacrifício de Jesus na cruz — sua dor e tortura em favor da nossa salvação.

A série brasileira me transportou de volta aos meus dias de graduação, quando cursava ênfase em Engenharia Nuclear, em 1987, ano do acidente radioativo em Goiânia. Embora a série não seja um documentário, ela transmite com maestria a atuação extraordinária de cientistas, médicos e profissionais da área nuclear naquele episódio. Era uma situação única, sem precedentes, de proporção maior do que qualquer outro acidente desse tipo no mundo. Como agiriam os técnicos da CNEN, os médicos e as autoridades, sem nenhum caso anterior que servisse de exemplo ou orientação?

Nossos cientistas e autoridades brasileiras fizeram exatamente o que nunca havia sido feito: agiram com excelência, em meio a um risco extremo, e no tempo certo para evitar que a contaminação se alastrasse. Assumiram a responsabilidade pelo que precisava ser feito.

E não foram apenas eles. Uma personagem em especial — a esposa do dono do ferro-velho, que levou o objeto à vigilância sanitária — foi fundamental para a identificação do grave acidente. São ações que servem de exemplo no mundo inteiro, sem deixar espaço para críticos apontarem falhas nos procedimentos. Isso me enche de orgulho, como engenheira nuclear e como brasileira. A série é emocionante e merece ser assistida.

E Jesus? Ele não queria morrer. Não queria sofrer, nem deixar a convivência de seus discípulos. Chegou a pedir a Deus que o poupasse daquele sofrimento. Mas ele assumiu a missão. Não cedeu. Enfrentou a injustiça de pessoas que — não, não eram da Geração Z — mas que não assumiram sua parte, se acovardaram e deixaram que um homem que pregava a paz fosse crucificado.


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