Existe realmente um apagão de mão de obra ou não sabemos mais contratar?

Como presidente de uma associação de empresas de tecnologia da informação e comunicação, ouço com frequência pessoas preocupadas com o que chamam de "Apagão de Mão de Obra para Profissionais de Ciências de Dados e Inteligência Artificial".

Em geral, isso se refere a uma crescente demanda por parte dos clientes por novas tecnologias para transformação digital de suas empresas. Fala-se que hoje em dia não encontramos profissionais de programação aptos a desenvolver nas novas tecnologias de inteligência artificial ou big data, deixando um mercado carente de projetos tecnológicos de ponta.

Apesar deste cenário, vejo profissionais brasileiros saindo do país, não para tentar a vida em Portugal, mas já com emprego garantido em empresas de tecnologia internacionais nos EUA, na Holanda, na Alemanha, no Canadá, na Austrália e no Reino Unido.

Então como se explica este fluxo de profissionais jovens para o exterior e ao mesmo tempo estar com falta de profissionais aqui no Brasil?

Analisando um pouco mais a situação, encontrei uma uma explicação diferente: ao contrário do que se acredita, o problema pode estar na liderança de projetos que não é capaz de absorver o profissional por falta de capacidade em dar orientação técnica, selecionar a linguagem de programação, definir métricas, entender as restrições e cobrar prazos.  


São muitas linguagens, bibliotecas disponíveis e bots para funcionalidades específicas, mas para atender à demanda mais específica de machine learning dos nossos clientes, é necessário investir em mais do que conhecer comandos das novas linguagens de programação ou parametrização de APIs.   

Até recentemente, o desenvolvimento de sistemas do brasileiro era reconhecido como muito avançado.  Fomos pioneiros em diversos setores nos anos 90 e 2000 como o setor bancário, na votação eletrônica e no comércio eletrônico. Viram as boas práticas de gerenciamento de projetos com foco na produtividade e deixamos de improvisar, o que aumentou a qualidade dos nossos serviços.  O problema é que a linha de produção atingiu em cheio o setor quando os métodos de desenvolvimentos tradicionais não conseguem mais responder aos desafios da atualidade.

Como gerenciar projetos que nunca fizemos antes?

No final do ano passado, assisti uma palestra do Professor da FGV André Valle sobre Gerenciamento de Projetos Espaciais.  Ele começou coneituando a diferença entre projetos complicados e projetos complexos.  Projetos complicados são aqueles que tem várias etapas, vários elementos e um cronograma crítico.  Já projetos complexos seriam aqueles que nunca foram feitos anteriormente e portanto não tem um caminho crítico conhecido. 
No contexto de desenvolvimento de sistemas envolvendo AI, IoT e Big Data nas empresas, podemos dizer que a gestão de projetos poderia ser classificada como Gestão de Projetos Complexo uma vez que isso é uma novidade para muitas empresas no Brasil.  

Afinal, as empresas estão fazendo algo que nunca foi feito dentro da organização, não tem profissionais com experiência e não sabem exatamente que ferramentas usar.

Em um mundo de APIs, webservices, sensores, Arduínos, cloud e big data, como fazer uma seleção de quais ferramentas usar?  

E se as ferramentas escolhidas não forem adequadas, teremos agilidade para mudar e selecionar nova ferramenta?  

E o profissional contratado para o projeto que sabe programar uma determinada linguagem vai ser dispensado porque uma nova linguagem foi adotada sem concluir o projeto? 

É nesse momento de tomada de decisão, que muitas empresas assumem precipitadamente que são incompetentes para gerir dessa forma e veem como único modo de conseguir implantar projetos de AI, IoT ou Big Data é contratar uma startup. A startup se encarregaria de atuar como um escritório de projetos e também como RH na contratação dos profissionais de desenvolvimento.
E se as empresas preparassem seus profissionais seniores e gerentes de projeto para conhecer mais tecnologia de forma a assumir a liderança de equipes de desenvolvimento de projetos inovadores ligados à Ciência de Dados e Inteligência Artificial?

A empresa deve reconhecer a necessidade levar o líder, o gerente, de volta para o aprendizado técnico para capacitá-lo a:
  1. Selecionar profissionais com facilidade de aprendizado de novas tecnologias e bom raciocínio lógico;
  2. Orientar o profissional a aprender novas tecnologias sendo autodidata e cobrar resultados;
  3. Ter capacidade de reconhecer se uma solução é factível ou não mesmo sem saber qual ferramenta usar;
  4. Ser capaz de reconhecer obstáculos tecnológicos e definir prazos para conclusão e, em caso de insucesso, buscar alternativas (plano B);
  5. Ser ágil na reformulação de cronogramas e ser capaz de cobrar prazos de uma tarefa que nunca foi feita antes baseado no seu conhecimento técnico; e principalmente,
  6. Estar preparado para dividir o projeto em marcos a serem alcançados que não são necessariamente horas de desenvolvimento ou ponto de função. 
 Se o gerente da área de tecnologia for capaz de atender os itens acima, o analista e desenvolvedor aparecem, pois eles só precisam de um líder para encaminhá-lo no caminho do sucesso.
 Precisamos levar os nossos gerentes de volta para a programação para que eles saibam gerir melhor aqueles que vão fazer este serviço no futuro.



Comentários

  1. Excelente reflexão.
    Felizmente algumas empresas já estão entendendo a necessidade e um profissional multifuncional. Não basta mais apenas saber programar. Estes profissionais precisam entender de negócios e estatisica entre outras.
    As empresar precisarão avaliar, para o seu negócio, se é melhor capacitar um programador em negocios ou um especialista em negocios a programar.
    Em fim cada um precisa saber quais suas necessidades.

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