Como será o amanhã?

(...)

Como será amanhã?
Responda quem puder
O que irá me acontecer?
O meu destino será
Como Deus quiser
Como será?

(...)

*Samba Enredo da União da Ilha do Governador 
1978

A pandemia COVID-19 criou uma situação mundial inédita: 4.5 bilhões de pessoas foram confinadas em casa.  Da China aos EUA, passando pelo Japão, pela Itália, França, Índia todos em casa para evitar um tragédia maior do que já estava acontecendo.

Isso provocou uma imediata mudança de comportamento no consumo, no trabalho, no entretenimento e na dinâmica do deslocamento.  Tendências em alta até então sofreram uma interrupção abrupta como, por exemplo, o transporte de aplicativo como Uber ou de hospedagem como Airbnb.

Grandes eventos, viagens internacionais, bares, restaurantes, tratamentos estéticos, calçados e vestuários, shopping centers foram profundamente abalados.

Até mesmo o hábito de consultas médicas preventivas e procedimentos eletivos sofreram com a crise. 

Com essa mudança repentina de hábitos, muitos setores econômicos foram fortemente impactados e, muitas empresas viram o faturamento sumir e consequentemente muitos empregos foram perdidos.

Entretanto, no meio da crise econômica e sanitária, não tivemos desabastecimento de itens essenciais de consumo, ao contrário, supermercados e farmácias viram suas as vendas crescerem.

A internet, através de celulares e cabo, foram as grandes estrelas neste momento na prestação de serviços.  O isolamento social exigia proximidade virtual.  Assim, as pessoas conseguiram se conectar com seus empregos em home office, astros da música fazem espetáculos online de casa, crianças e jovens tem aulas à distância, médicos consultam seus pacientes por telemedicina e até igrejas realizaram seus cultos online.

O comércio tradicional de rua e shopping fez o possível para superar e vender online e as plataformas de e-commerce tiveram um grande impulso.

E os eventos tecnológicos e de negócios?  As plataformas de teleconferência, que se tornaram o foco de todas as atenções e eventos para todos os gostos, se multiplicaram.

No meio de toda essa mudança, um elemento a mais na crise humanitária: a falta de equipamentos médicos e de proteção individual. Países como Estados Unidos e Alemanha brigaram por equipamentos, Brasil perdeu produtos já encomendados para países mais ricos.  Conseguir máscaras cirúrgicas e respiradores para UTI está sendo um embate de poder.  Essa dificuldade revelou ao mundo que a produção excessivamente segmentada em nível mundial pode ser ruim para momentos emergenciais e levantou uma bandeira de que uma indústria local diversificada e forte poderia ser um fator importante para vencer crises mundiais.

Agora voltamos à pergunta do título: Como será o amanhã?  Nós voltaremos a consumir, trabalhar, vender e produzir como antes?

O novo normal, como será?  Um primeiro ponto  a discutir é o cenário econômico: será que a nova economia continuará baseada em altíssima produção, no consumo excessivo e descartável, já que agora nos acostumamos a ficar em casa e gastar menos? Os países poderão encontrar uma fórmula de economia sustentável sem a obrigação de crescimento do PIB?  Sim, isso é uma possibilidade real e economistas de todo mundo já estão estudando modelos econômicos sem o PIB como principal indicador econômico.

Se a produção em escala acelerada exige um consumo desenfreado para a sustentação da economia, assim como a necessidade de matar qualquer concorrência, então uma produção descentralizada e em menor escala será provavelmente mais cara e consequentemente trará um consumo mais racional. 

Um segundo ponto a ser notado: o comércio local tradicional de rua ou de shopping foi forçado a aderir ao comércio eletrônico para continuar vendendo. Esse comércio mais próximo das nossas residências conseguem entregar com um prazo menor e essa pode ser a grande oportunidade para competir com as grandes redes nacionais que tem estoque centralizado e entregas demoradas.

Sobre eventos e congressos online, carecem de charme. Eles não tem o olho no olho, não tem o calor da plateia, não tem o networking dos participantes, mas dāo a oportunidade de participação em vários em um mesmo dia e de reunir palestrantes de cidades, estados e países diferentes sem custo alto. Certamente será uma modalidade de evento que vai se aperfeiçoar e criar novas oportunidades.

As aulas online estão nos primeiros passos. A  rede particular deu o pontapé inicial, mas a rede pública não se arriscou por reconhecer a carência de equipamentos adequados e infraestrutura nas casas da população mais pobre. Essa restrição já está sendo combatida com a distribuição de chips de dados para os alunos da rede. Ainda existem críticas, mas logo o computador será um item mais essencial para as famílias em geral do que a TV, assim como o celular substituiu rapidamente o uso de linhas fixas principalmente nas classes mais pobres.

Resumindo, tudo que muda para melhor, não volta mais, mas qual desses hábitos novos são melhores do que fazíamos antes?

Como dizia o primeiro verso do samba da União da Ilha: "A cigana lê o meu destino", nós não temos como prever o que irá acontecer, sabemos que este momento irá marcar as nossas vidas, mas não sabemos como e, apesar de vocês que leram até esse ponto estarem um pouco decepcionados, vamos ser francos, as previsões são apenas ideias, pensamentos, não temos como saber se vão acontecer de verdade.

Mas ouso a fazer uma previsão sobre previsões: os sistemas preditivos de análise de dados serão instrumentos mais usados do que nunca e irão ajudar a sociedade plural a entender as suas normalidades e padrões. O domínio dos dados por um grande grupo de pessoas, de formação técnica ou leigas, trará uma visão de futuro agradável pois irá dar mais garantias para o gestor público, começando com os grandes países chegando até às pequenas cidades. Entenderemos a sociedade como um corpo e os dados serão usados por todos com recursos de pesquisa e apoio à tomada de decisão. Não que essas tecnologias sejam inovadoras, mas a sua aplicação em larga escala e de forma fragmentada será uma revolução para a vida em sociedade.

Faça você mesmo a sua análise de dados, ajuste para ver a nova forma de visualização e por fim, tire as suas conclusões e compartilhe com colegas. É a força do coletivo pensante para enxergar com clareza os problemas e encontrar as melhores soluções.

Abaixo um exemplo que eu e meu colega Victor Wanderosck estamos alimentando para análise das curvas de contaminação nos estados do Brasil diariamente sendo possível ver as mudanças desde dia 13/3 até hoje.

maps.lab245.com.br

Essa outra análise, acompanhada pelo celular, acompanha a evolução da doença nos países de todo o mundo desde 31/12/2019, feita pelo Márcio Ferreira.


Analisar as vidas de bilhões de pessoas, exige uma visão mais estruturada, mas essa visão não é necessariamente igual para todos ainda que os dados sejam.  Soluções geniais surgem da cabeça das pessoas, as ferramentas só permitem que grandes ideias se baseiem em cálculos consistentes e dados confiáveis.

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